“O tripé da dignidade humana”, foi a expressão que despertou minha mente ao ler os primeiros capítulos de “Psicologia Social Crítica Como Prática de Libertação” – escrito por Pedrinho Guareschi, e manteve-a cativa à leitura à medida em que o autor formava esse tripé com suas considerações. De forma clara e simples, sem linguagem rebuscada – e ao mesmo tempo sem comprometer o estilo literário, Guareschi consegue delinear os contornos e entornos da sociedade em que vivem os homens provocando profundas reflexões sobre como o sujeito se move nesse ambiente.
Ao falar da consciência, o primeiro dos pilares do tripé da dignidade humana, Guareschi procura despertar a fundamental capacidade do homem pensante de questionar, inquirir, e ponderar sua existência no contexto social e seu papel como parte no processo de constituir sociedade. Quando pensamos, questionamos, arrazoamos, despertamos uma consciência libertadora que faz com que sejamos mais do que agentes passivos na sociedade. Faz com que sejamos elementos atuantes e contribuintes para o desenvolvimento comum.
Como segundo pilar do tripé, e como fruto de uma consciência despertada pelo exercício do questionamento crítico, Guareschi cita a “liberdade”. Liberdade para o homem escolher de forma emancipada e consciente o que lhe convém na sociedade. O que ele espera como produto no meio social, e o que ele pretende como produtor no mesmo ambiente. Libertação dos pré-conceitos impostos numa sociedade normativa onde o poder permeia muitas vezes, de forma dominante. Libertação das influências de ideologias que cerceiam o pensar e restringem a evolução das ideias. Libertação da formatação cultural, uma vez que as produções culturais tendem a moldar o homem a padrões que causam mal-estar mais do que satisfação e realização pessoal.
Mas um tripé não é tripé com dois pés apenas. O terceiro pilar no tripé da dignidade humana é resultado não apenas do despertar da consciência pelo questionamento; não apenas da liberdade que uma consciência despertada produz. O terceiro pilar do tripé é a evolução dos dois primeiros. É um senso crítico e ético que molda a subjetividade humana; que faz com que o homem seja não apenas uma figura no cenário social, mas como uma peça útil no encaixe de uma engrenagem, e que produz o bem-estar social numa comunidade. É o que Guareschi chama de “responsabilidade”. Não é suficiente questionar, contestar, e se libertar. É necessário que sejamos responsáveis a certos princípios morais se é que queremos uma sociedade ética e justa para todos. Sim, o conhecimento que uma consciência despertada nos dá nos impõe, ao mesmo tempo, responsabilidade. E se falhamos nisso a dignidade humana torna-se capenga, cambaleante. A responsabilidade nas ações é como o terceiro pilar que dá estabilidade numa sociedade humana.
Muitos outros pontos importantes Guareschi aborda para descrever e formatar a sociedade em que vivemos. As diferentes “cosmovisões”, ou “visões de mundo” que habitam nossa consciência. A “educação”, “comunicação”, “cultura” que permeiam toda relação social. O conceito de “relação” – que forma toda sociedade, “ação e mudança”, “ética”, entre outros. Todos estes temas tendem a promover no leitor o que parece ser o objetivo do autor, que é a reflexão crítica sobre a questão social. Isto está bem de acordo com o que eu considero ser o ponto chave do livro, ou seja, a formação do “tripé da dignidade humana”, consciência - liberdade – responsabilidade. É o que torna o ser humano, humano.
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